Todo domingo eu amanhecia na casa de vovó. Cedinho acordava, ela dizia que na madrugava nevara, mas nunca consegui ver a neve. Vovó significava orvalho e geada como neve. Cedo íamos à missa, eu queria estar na primeira e não na missa das oito que com tanta criança me impedia de bem ouvir o padre. Depois o sofá, o pãozinho com manteiga na chapa que vovó levava pra mim, Viola minha viola. Depois, no alpendre, vovô empunhando a bíblia contava-me histórias maravilhosas daquele livro. Frequentemente as histórias principiavam com "Jesus e Pedro estavam andando pelo mundo". Lembro-me de uma e deixo para lá as palavras de vovô, conto com as minhas: Estavam Jesus e Pedro a vagar pelo mundo quando entraram em uma igreja. Lá, uma senhora ricamente vestida, portanto muitas jóias, ajoelhada rezava. Jesus olhou para a mulher: "Estejas amaldiçoada." Pedro fez cara de "Meu Deus, que é isso?", mas calou-se, continuou a seguir os passos do mestre. Já distantes da tal igreja, cruzaram com uma mulher de longos cabelos que, num balanço sob uma árvore balançava alegremente de lá para cá, violão nas mãos, a boca cantava, cabelos ao vento. Jesus olha para a mulher e diz "Estejas abençoada". Pedro interpela o filho de Deus: "Mas como assim Jesus? Aquela que estava rezando, você amaldiçoa; a que estava vadiando o senhor abençoa?" E Jesus, calmo como sempre, responde: "É que a mulher que estava rezando não o fazia por mim e sim por vaidade. É mesquinha, má e precisa da Igreja para parecer outra coisa. A outra mulher não queria nada além do que estava fazendo, não desejava mal à ninguém." Vovô iniciava a narrativa com cara solene, mas logo descambava em gargalhada. Vovó indignada dizia "a menina vai acreditar, para com isso Ditim." Vovô inventava histórias de bíblia. Mas ele sabia das coisas. Não sei se eu acreditava, mas sempre preferi cantar à rezar.  

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