Aos domingos, já naquela época, eu era uma pequena metida à besta. Não queria ir na segunda missa da manhã, que era conhecida como "Missa das crianças". Eu não gostava. As crianças pareciam saber pouco dos mistérios e exigências do Senhor e eu não suportava a algazarra! Preferia a primeira missa, vazia e silenciosa. Gostava de ouvir o que o padre, aquele velhinho, tinha para dizer, e sonhava com o dia que comeria hóstias.
Depois da missa, casa de vovó, pão na chapa, "Viola minha viola" (estamos na década de 80). Meu avô, que apesar de católico não ia à missa, punha-se a contar histórias bíblicas, que invariavelmente se iniciavam com um "No tempo que Jesus e Pedro andavam pelo mundo...". Numa dessas histórias, talvez como modo de justificar à neta seu pouco compromisso em de fato frequentar a igreja, vovô contava daquela vez que Jesus e Pedro estavam passando por uma igreja quando avistaram uma senhora muito distinta, bem vestida e coberta de jóias que, de joelhos, rezava. Jesus olhou para a mulher e disse: "estás amaldiçoada". Pedro ficou sem entender, mas não questionou seu mestre. Seguiram. Mais adiante encontraram uma jovem mulher vestida de forma simples; balançando alegremente debaixo de uma árvore, a mulher cantava e tocava violão. Jesus a olhou e disse: "estás abençoada". Pedro não se conteve: "Senhor, mas que que é isso? A mulher rezando, o senhor amaldiçoa; a mulher vadiando, o senhor abençoa? Era só o que faltava, agora eu vi minha mãe de ceroula!!" Jesus, calmo como sempre, responde: "É que a mulher que estava rezando não o fazia por amor a Deus e sim por vaidade. É mesquinha, má e precisa da Igreja para parecer o contrário disto. A outra mulher não queria nada além do que estava fazendo, não desejava mal a ninguém." Vovô sempre iniciava suas narrativas com cara solene, mas logo descambava em gargalhada. Vovó indignada dizia "a menina vai acreditar, para com isso Ditim!!"
Vovô inventava histórias de bíblia. Mas ele sabia das coisas. Não sei se eu acreditava, mas sempre preferi cantar a rezar.
Vovô inventava histórias de bíblia. Mas ele sabia das coisas. Não sei se eu acreditava, mas sempre preferi cantar a rezar.

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