É domingo, fins de fevereiro, ela não sabe ao certo o dia. Acordou cedo, finalmente conseguiu dormir uma noite inteira, parece que esteve sofrendo da peste da insônia. Mas hoje dormiu, do pouco que acordou voltava-se para a pele macia deitada ao lado, o homem que tanto ama. Cantou-se sua primeva música de ninar: Nana neném, que a cuca vem pegar. Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar. Agora ela tem que escrever. E pensar na revista. No entanto fica-se sentindo coitada, portando-se coitada, querendo colo nas mais ínfimas imaginações. E era só o que faltava! Está, como costuma dizer sua mãe, mijando pelo cu! Pede água de coco. É incrível a capacidade da angustia de se fazer presente no corpo, o real invadindo o imaginário tendo mordido de leve o simbólico. O cabelo está bonito, para de vez em quando pra admirá-lo no reflexo da tela do computador. Parece que quanto menos pretende sair na rua, mais bonito e vistoso ele fica. Delírio? Saiu correndo, tomou um pouco de chuva, sob o sol. Queria ter tempo pra bronzear a cara, fica pra outro dia. Sabe que, no outro dia, quando houver tempo, não haverá disposição. Assim cultiva sua histérica insatisfação.
24-02-2019.