É domingo, fins de fevereiro, ela não sabe ao certo o dia. Acordou cedo, finalmente conseguiu dormir uma noite inteira, parece que esteve sofrendo da peste da insônia. Mas hoje dormiu, do pouco que acordou voltava-se para a pele macia deitada ao lado, o homem que tanto ama. Cantou-se sua primeva música de ninar: Nana neném, que a cuca vem pegar. Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar. Agora ela tem que escrever. E pensar na revista. No entanto fica-se sentindo coitada, portando-se coitada, querendo colo nas mais ínfimas imaginações. E era só o que faltava! Está, como costuma dizer sua mãe, mijando pelo cu! Pede água de coco. É incrível a capacidade da angustia de se fazer presente no corpo, o real invadindo o imaginário tendo mordido de leve o simbólico. O cabelo está bonito, para de vez em quando pra admirá-lo no reflexo da tela do computador. Parece que quanto menos pretende sair na rua, mais bonito e vistoso ele fica. Delírio? Saiu correndo, tomou um pouco de chuva, sob o sol. Queria ter tempo pra bronzear a cara, fica pra outro dia. Sabe que, no outro dia, quando houver tempo, não haverá disposição. Assim cultiva sua histérica insatisfação. 

24-02-2019.

Pedaço de identificação.

Do que dizem e pensam dela, mal consegue perceber, salvo as críticas. E as mais duras são aquelas que ela mesma inventa e projeta com seu canhão. Aquelas que a empurram pra um lugar de dejeto. É uma menina negra. Marcada por uma cena na qual os pais gargalham diante de uma lista de piadas. O papel, mimeografado, coisa de um passado que parece distante, cheirava a álcool. Ela se lembra de algumas, mas uma resume a essência da lista grotesca:

"- O que acontece se um preto pisar num monte de bosta? Aumenta o monte."

Seus pais, negros que ascenderam à classe média, em parte por mérito, ok, mas representantes da exceção que confirma a regra, riam, e muito. Hoje ela olha pra trás em choque, diante desta cena encarnada por seus pais: do desespero do negro que ascendeu socialmente em se identificar com a classe média branca, à Casa Grande, apagando as próprias marcas e diluindo sua cor, coisa que Neusa Santos Souza tão bem elucidou em seu livro Tornar-se negro... Ela, a menina? Identificou-se ao coco.  
Hoje ela lavou roupa. Fizera isso pouquíssimas vezes. Lembra-se, com um pouco de custo, da máquina de lavar que havia em sua república, na época da facul. Então sim, ela já havia lavado roupa, mas hoje sentiu-se tão perdida nesta labuta que é como se fosse a terceira vez. Entendeu naquele momento o porque de, na dialética do senhor e do escravo de Hegel, o senhor não ser livre: sem o escravo, o que fazer? É o escravo quem sabe como fazer. Lembra-se que sua mãe tentava lhe ensinar sobre a lida doméstica, dizia da importância disto para uma mulher, era o que sua mãe lhe dizia. Mas tais ditos maternos pareciam contradizer um outro dizer, pois a menina se criou como uma princesa. Ou teria sido a menina quem, desde cedo obstinada em ser do contra, negara-se a fazer como a mãe, ser como a mãe? Pouco importa, o resultado: uma menina mimada que não sabe fazer as coisas. Sentiu vergonha disso.   

Dias da semana



Tinha essa estranha capacidade de ver em sua cabeça imagens de coisas insólitas, tais como os dias da semana. O caso é que, destas imagens, de vivacidade fugaz, palavra não conseguia dizer. Qualquer tentativa de fazê-lo era coroada com a fuga da imagem e o murchamento da palavra não dita. Mas estava ali, representado, o sábado, o domingo e os outros dias, sucessivamente, com imagens que variavam de acordo com a época do ano, o dia do mês, o estado de espírito. Como podia ela ver a quarta-feira sem conseguir desenhá-la com palavras? Estaria em causa a pouca imaginação? 

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...