Do que dizem e pensam dela, mal consegue perceber, salvo as críticas. E as mais duras são aquelas que ela mesma inventa e projeta com seu canhão. Aquelas que a empurram pra um lugar de dejeto. É uma menina negra. Marcada por uma cena na qual os pais gargalham diante de uma lista de piadas. O papel, mimeografado, coisa de um passado que parece distante, cheirava a álcool. Ela se lembra de algumas, mas uma resume a essência da lista grotesca:
"- O que acontece se um preto pisar num monte de bosta? Aumenta o monte."
Seus pais, negros que ascenderam à classe média, em parte por mérito, ok, mas representantes da exceção que confirma a regra, riam, e muito. Hoje ela olha pra trás em choque, diante desta cena encarnada por seus pais: do desespero do negro que ascendeu socialmente em se identificar com a classe média branca, à Casa Grande, apagando as próprias marcas e diluindo sua cor, coisa que Neusa Santos Souza tão bem elucidou em seu livro Tornar-se negro... Ela, a menina? Identificou-se ao coco.
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