HER








Her é um filme encantador. Que me faz pensar em coisas do tipo: será que o medo, expresso neste filme, ainda que de forma doce, monótona e poética, que os homens tem de serem dominados pelas máquinas não expressaria, ao menos em parte, uma fantasia de onipotência, um desejo de ser Deus? Falo de algo que já está lá no Frankstein de Mary Shelley. O criador dominado pela criatura. Lembro do Homem de Areia de Hoffman e atravessa-me a ideia de que a relação do homem com a tecnologia fora sempre marcada por uma tensão, algo que se dá entre o fascínio/esperança e o terror. Volto na coisa de brincar de Deus e suas consequências: a liberação de forças terríveis, incontroláveis. Não foi isto que sucedeu a Fausto

Her é uma história de amor. Entre um homem, Theodore, e seu sistema operacional. Vejam que interessante: é ele, as palavras dele, ao responder algumas perguntas, que dão vida ao tal sistema operacional. Como num sopro, nasce Samantha. Não das costelas, mas sim, das palavras de Theodore.

E quem é Samantha? Antes de mais nada, é voz. No futuro retrô desenhado pelo diretor, a voz está em causa tanto quanto ou mais que a imagem: as pessoas, solitárias, caminham com um pequeno fone enfiado na orelha, conversando com seus telefones espertos. Ao final do filme fica a pergunta: quem foi o sistema operacional de quem? Há poesia nesta fina ironia: no fim das contas, são as máquinas que decidem se desconectar dos humanos. No filme, são os sistemas operacionais que se desconectam de um mundo limitado e virtual para eles.

E quem é Samantha? Samantha é A Mulher. Que não existe... "É como se eu estivesse lendo um livro [...] as palavras estão espaçadas e os espaços entre as palavras são quase infinitos. Eu ainda sinto você e as palavras de nossa história, mas agora eu me encontro nesse espaço infinito entre as palavras", é o que Samantha diz ao abandonar Theodore. Ela está lá, no intervalo, lá onde não há significante que represente.

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