O nome do pai.

Tenho pensado muito no quanto sou filha de meu pai. Foi ele quem escolheu meu nome. A princípio, uma homenagem à sua avó, minha bisa: eu carrego o nome dela. E quem é esta bisavó? Nas palavras de papai, era uma mulher legal mas muito preocupada, não queria que o neto se machucasse. Muito inteligente e pacificadora dos conflitos familiares. Diz ele que se ela tivesse estudado teria sido muito bem sucedida. Certa vez, ele me conta, conta sempre, ela lhe pediu que comprasse cigarros. Ele disse que não tinha dinheiro e ouviu como resposta: "Um homem que não tem dinheiro pra comprar um cigarro pra avó não é um homem." Meu pai saiu correndo, deu seus pulos, comprou o cigarro e levou para ela, que disse "Agora sim! Mostrou que é homem!" Para ser homem, ter dinheiro. Lembro-me de quando meu pai comprou seu primeiro carro "zero". A pessoa que ele convidou para dar uma volta e estrear o banco ao lado do motorista foi minha bisa. Ele era homem, tinha dinheiro, podia comprar um carro. Coisas da neurose de meu pai, para ele bem sucedido e digno de respeito é quem tem dinheiro. Essas coisas se transmitem...

Meu pai é um homem negro, daqueles que se diz moreno, pois pouco retinto. A ele foi transmitido o ideal de branqueamento que permeou (e permeia) a cultura brasileira pós abolição da escravatura, percebo em seu discurso. Quando viu pela primeira vez a foto do homem branquíssimo de cabelos brancos, pai daquele que viria a ser meu marido, exclamou com olhos brilhantes: "Parece americano!!" 

E eu sou muito filha de meu pai. Quando jovem, ele ganhou um apelido por conta de um cantor que gostava muito, Frank Sinatra. Cresci ouvindo minha mãe chamá-lo de Frank, mas a voz de Sinatra nunca esteve presente. Talvez o apelido tenha surgido por conta de alguma tentativa de parecer refinado, mas ele gosta mesmo é de música sertaneja. Um belo dia, perguntei à papai que livro ele havia lido e gostado mais. Em casa havia muitos livros, várias enciclopédias, diz que um vendedor passava no serviço do meu pai e ele comprava os livros para mim, para o futuro. Eu brincava com esses livros, mas nunca o vi se demorar por ali folheando um livro qualquer. Diante da pergunta ele me respondeu que seu livro preferido era "O diário de Anne Frank". Mas ele não me disse sobre o que era a história, desconfio fortemente que ele nunca leu tal livro. Frank Sinatra e Anne Frank eram Mentira. Não tudo mentira. A realidade se estrutura como ficção e esta mentira de papai carrega algo de seu desejo: Fran. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...