Fase oral?

A gente lá de Ituverava gosta de comida e de cozinhar, ao menos a minha gente.
Prazer que passa pelo tempo, aquele que se leva rodopiando de um lado para o outro da cozinha, entre a pia e o fogão.
Que passa pela bruxaria: a manipulação dos ingredientes, a escolha e adição dos temperos, as invenções, o toque especial, a mágica!
E que passa, sobretudo, pela reação jubilosa daqueles à quem se serve o prato.

É claro que, no meio desta gente, há sempre o rebelde. Afinal, diante da comida, disto que, no meu caso, é negócio de família, fechar a boca, recusar-se a comer é pura rebeldia! Já estive aí, neste lugar, não estou mais. Onde é que estou agora?

Hoje passei em frente à uma "Banqueteria". Suponho ser uma espécie de restaurante. Ora bolas, era só o que faltava!! Creio que a gourmetização do universo tem diante de si vida curta, é moda passageira. É só um palpite. Penso que o aprofundamento da desigualdade social em curso hoje no Brasil afetará o caminho gourmetoso que a classe média seguiu como forma de distinção social. Para tal, distinguir-se socialmente, gourmetizar-se deixará de ser necessário, e as ofertas no mercado irão encolher. Ou não, afinal é só um palpite.

Pois é, comida me faz pensar, é negócio de família. Negócio não capitalizado e sim prazer que se cultiva na base do exagero, cuja tônica é "não passar vontade". Herança da fome, de gente que passou muita fome e/ou sentiu vontade de... comer. Herança negra?

2 comentários:

  1. Engraçado que apesar da origem diferente, partilhamos da mesma relação com a comida. No caso da minha avó, foi por ter vivenciado seus pais e avós vindo da guerra , da Itália.. não consta que ela - minha avó - tenha passado fome, mas carrega consigo essa herança e transmitiu aos filhos e netos.
    Não passar vontade. Comer como se não houvesse amanhã.
    Essa sempre foi minha relação com a comida. Uma relação de medo de perder.. estranha forma de lidar com algo tão simples.
    Mas minha “musa fitness” quebrou essa corrente. Agora sei que não preciso comer ate morrer, pois se sentir fome, posso comer mais, posso comer sempre, posso comer o que quiser, quando quiser, como quiser.
    Mas basta voltar para Ituverava para esquecer tudo que é racional e mergulhar nesse mundo estranho da gastronomia raiz (não gourmetizada).

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