Niketche, uma história de poligamia - Paulina Chiziane

Estou a ler "Niketche, uma história de poligamia", da moçambicana Paulina Chiziane. Chiziane venceu o prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, segundo dizem, em 2021. Ela foi a primeira mulher negra a receber tal prêmio, o que já faz refletir sobre o machismo. Mas não é só isso: Paulina foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Isto deixou-me abismada: uma mulher, escritora profissional em Moçambique, é coisa recente então. Deve ser um país difícil para ser mulher, pensei. E comprei o livro.

Desde então, já tem algum tempo, mais de mês, venho realizando arrastada leitura da obra. A coisa não flui. Não falta lirismo, bonitas imagens e passagens. Logo no início, o modo bonito de descrever pequenas tragédias cotidianas: 

"Há emoção em cada gesto [...]. Do alto do céu desliza um punhal invisível contra meu peito. Ganho a mudez das pedras, estou aterrada." (p.9). 

Apesar da beleza da escrita, a dureza do conteúdo da narrativa, a dureza de ser mulher, a condição contada ali, causa incômodo e estranhamento. Há uma espécie de cisão cultural na descrição do país feita pela autora, ela nos traz dados históricos: as mulheres do Norte x as mulheres do Sul. Mas ao que parece, de Norte ao Sul, de mamando à caducando, o que há é submissão e sofrimento dessas mulheres. A personagem principal, que é quem narra a história, parece um satélite em torno de um planeta qualquer, sem a possibilidade de se aventurar por outras órbitas. Vai dando um certo desespero acompanhar a saga de Rami e sua lamúria em torno de um casamento em frangalhos com um homem que, ao longo do tempo, foi acumulando esposas-amantes. Dá uma tristeza ler que mesmo estas amantes, quando nascidas no norte de Moçambique, região onde supostamente as mulheres teriam mais domínio sobre o próprio corpo, participantes de rituais específicos de iniciação sexual, mesmo essas parecem gravitar em torno do ser alguém para um homem ou ter um homem para lhes sustentar. 

"Uma mulher sozinha é um grão de poeira no espeço, que o vento varre para cá e para lá, na purificação do mundo. Uma sombra em sol, nem solo, nem nome" nos diz Rami (p.80).

Esta frase fez-me lembrar de uma frase dita no filme A flor do meu segredo, do Almodóvar, por uma mãe diante do sofrimento da filha, que sofre, é claro, pelo amor de um homem: "Uma mulher sozinha é como uma vaca sem chocalho: perdida, sem rumo, sem orientação". Uma mulher sofrendo por amor é tema universal. 

Não sei bem onde a história, que insisto em ler, vai dar. Mas confesso que não estou animada e sim aflita. Aflita por ser mulher? " Mulher é ser solitário na marcha da multidão. Mulher é a dor coletiva que cobre o mundo inteiro. É passado, presente e futuro, lugar e distância, ligados pelo mesmo grito." (p.188)  




 

 Uma coisa boa de ter voltado a reler escritos meus espalhados ererywhere, pra tudo quanto é lado, é que pude me lembrar de que a paixão plantística, a paixão por plantinhas, sobretudo suculentas, começa antes da pandemia. A verdade é que durante os dois anos de isolamento, um longo e interminável 2020/21, dois anos que serão lembrados como uma longa noite escura, com uma ou outra luz da lua e estrela cadente atravessando o céu, neste tempo eu puder ver algo de minha relação com as plantas, algo de herança talvez. Deparei-me com um vaso que plantei do zero e que, lindo, tornou-se meu xodó. E vi que eu multiplicava suculentas, há um corredor repleto delas. Vi o que tinha feito sem saber que estava fazendo. E continuei a fazer. 


Fílmica, filmuda, filmolina, filmonights.

 Ando super fílmica, filmuda, filmolina, filmonights ultimamente. Depois de tanto tempo com uma quase sempre preguiça pra qualquer coisa com mais de uma hora de duração, eis, e foi depois d'O Ataque dos cães, que entrei numas de ver filmes frenéticamente. Este filme despertou algo em mim. Não tenho familiaridade com a diretora, Jane Campion, acho mesmo é que este foi o primeiro filme dela que vi, mas li por aí que esta película marca um retorno depois de doze anos, salvo engano, da renomada diretora. Tem um filme dela na minha lista de filmes pra ver no Mubi, tô dessas agora, mubizenta. O ataque dos cães devolveu-me, ao menos neste momento, e certas coisas só podem acontecer no momento certo, a vontade de assistir filmes, bons filmes. Porque este é simplesmente do caralho! 

Antes de prosseguir, uma pequena digressão: quando será que subverteremos nossa língua a ponto de se poder dizer, de algo que é "bom pra caralho", que é "uma buceta de tão bom" ou "isso é uma buceta que só!"? 

Voltando ao  Ataque... Por causa dele fui invadida por uma ideia luminosa: assistir filmes como quem assiste série, sem o compromisso de terminar, vendo em partes, quando possível, na hora possível, "o que você anda assistindo? Eu? Essa semana estou assistindo 'De salto alto', e você?". Claro que às vezes o clima, o corpo e o humor estão para maratonar o filme, foi assim com Não olhe para cima.

Mas enfim, consigo imaginar alguns comentários depreciativos do tipo "mas aí você vai perder algo da experiência". Talvez os diretores ficassem putassos com esse naipe de decisão, assim como a Adele que, inconformada com a possiblidade de um álbum seu ser ouvido fora da ordem pelo ouvinte no Spotify, pressionou a empresa para eliminar o botão do shuffle quando se trata de um álbum. Pode ser, não sei, não importa, isso que chamei de ideia luminosa serve muito bem à mim, pode não servir a outros.

Mas hoje li algo que o amigo D. escreveu, sobre o que é para ele uma experiência de imersão, o cinema, ir ao cinema, tela enorme, e invejei o gosto dele. Num primeiro momento. Depois senti que cada um com seu cada um e vamos que vamos, como diria N.

Tenho assistido filmes de forma desembestada e gostosa. Logo, logo me canso e volto pro Seinfeld. E tudo bem. 

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...