Ontem à noite o cotidiano gelou minha espinha. As vezes saio faminta do trabalho e quando é assim não dá tempo nem vontade de chegar em casa, preciso parar, comer, relaxar. Gosto de fazer isto, sentar em uma mesa tão solitária quanto eu naqueles momentos, um caderninho, livro ou ambos nas mãos, uma cerveja, um lanche ou porção qualquer. Desde muito nova cultivava esta pequena fantasia que parecia realidade distante para as mulheres que me cercavam: sentar-me à noite sozinha em um bar. Por que não? Mas ontem alguns olhares trouxeram vivo à memória algo que escutei tempos atrás de uma amiga, que mora em outra cidade. Ela dizia não se sentir à vontade para fazer "coisas" sem o marido, as pessoas reparavam, a cidade, segundo ela, muito machista. Eu nunca quis saber se minha cidade é machista ou não (pois na verdade sei que é), nunca tive problemas em nadar contra a corrente, no fundo gosto, faz parte do meu "ser do contra". Mas ontem certos olhares gelaram minha espinha. Parecia o prenúncio de algo. A voz sobrenatural de um Outro, que recuso e combato, dizendo que não é coisa de mulher "direita" (vai ver por isso sou mulher de esquerda) sentar e tomar cerveja sozinha num boteco. Chegando em casa vejo em detalhe, com algum atraso, pois está difícil e angustiante acompanhar o Brasil, que a atual ministra do Ministério do Absurdo, da Mulher, Família e Direitos Humanos declarou, entre outras barbaridades, alguma bobagem associando a violência contra as mulheres ao fato delas quererem ser iguais aos homens, desqualificando a luta por igualdade de direitos. O Brasil está mergulhado num episódio de "Além da imaginação" e detesto ser elenco de apoio nesta tragédia mal escrita e sem catarse que vivemos hoje.
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