Mas o que isto quer dizer, sentar-se sozinha, tomar uma cerveja num boteco? Foi depois de tanto escutar mulheres chorando seu casamento, relações que sustentam por causa de Deus e dos filhos, falas que não chocam os ouvidos da analista que é, mas sim o sEU ouvido de mulher, que se fez esta pergunta.
Há pouco percebeu que desde cedo era uma espécie de iluminista, sem o saber: acreditava firmemente que, quando fosse gente grande, Deus estaria fora de moda e as igrejas vazias; inocente, imaginava que homens e mulheres, óbvio, por que não, teriam os mesmos direitos e desde então reivindicava para si a possibilidade de uma libertinagem não condenada, acessível, até então, apenas aos homens. Afinal parecia claro que quando ela fosse grande, já que a modernidade não para e o mundo caminha para frente, tudo isto teria ficado para traz: Deus e a opressão sexual das mulheres. Ela não sabia que "O
mundo avança[...], mas dando voltas ao redor do
sol" (García Márquez).
Talvez, a condição "mulher" a tenha sempre angustiado, mais do que gostaria de admitir para si mesma. Percebia algo de obsceno na relação de seus pais posto que acumulou sobre tal uma série de informações que talvez uma criança não necessitasse saber assim, tão diretamente. A principal dizia respeito às traições de seu pai. A mãe chorava, esperneava, mas nada fazia. Insuflava a filha contra o pai, ficava coitada, mas nada fazia. Ela, que não compreendia os meandros da dependência econômica, tomou a mãe por fraca, covarde. Desejava ser como o pai. Não porque o admirasse, mas porque, entre outras coisas, ele tinha o direito, talvez o dever, de sentar-se sozinho no boteco para tomar cerveja. Ele podia ter as mulheres que o quisessem enquanto que a mãe aconselhava a filha a "não se entregar" antes do casamento. Como admirar a mãe conformada, traída? Identificou-se ao traidor.