Mas o que isto quer dizer, sentar-se sozinha, tomar uma cerveja num boteco? Foi depois de tanto escutar mulheres chorando seu casamento, relações que sustentam por causa de Deus e dos filhos, falas que não chocam os ouvidos da analista que é, mas sim o sEU ouvido de mulher, que se fez esta pergunta. 

Há pouco percebeu que desde cedo era uma espécie de iluminista, sem o saber: acreditava firmemente que, quando fosse gente grande, Deus estaria fora de moda e as igrejas vazias; inocente, imaginava que homens e mulheres, óbvio, por que não, teriam os mesmos direitos e desde então reivindicava para si a possibilidade de uma libertinagem não condenada, acessível, até então, apenas aos homens. Afinal parecia claro que quando ela fosse grande, já que a modernidade não para e o mundo caminha para frente, tudo isto teria ficado para traz: Deus e a opressão sexual das mulheres. Ela não sabia que "O mundo avança[...],  mas dando voltas ao redor do sol" (García Márquez). 

Talvez, a condição "mulher" a tenha sempre angustiado, mais do que gostaria de admitir para si mesma. Percebia algo de obsceno na relação de seus pais posto que acumulou sobre tal uma série de informações que talvez uma criança não necessitasse saber assim, tão diretamente. A principal dizia respeito às traições de seu pai. A mãe chorava, esperneava, mas nada fazia. Insuflava a filha contra o pai, ficava coitada, mas nada fazia. Ela, que não compreendia os meandros da dependência econômica, tomou a mãe por fraca, covarde. Desejava ser como o pai. Não porque o admirasse, mas porque, entre outras coisas, ele tinha o direito, talvez o dever, de sentar-se sozinho no boteco para tomar cerveja. Ele podia ter as mulheres que o quisessem enquanto que a mãe aconselhava a filha a "não se entregar" antes do casamento. Como admirar a mãe conformada, traída? Identificou-se ao traidor.











Ontem à noite o cotidiano gelou minha espinha. As vezes saio faminta do trabalho e quando é assim  não dá tempo nem vontade de chegar em casa, preciso parar, comer, relaxar. Gosto de fazer isto, sentar em uma mesa tão solitária quanto eu naqueles momentos, um caderninho, livro ou ambos nas mãos, uma cerveja, um lanche ou porção qualquer. Desde muito nova cultivava esta pequena fantasia que parecia realidade distante para as mulheres que me cercavam: sentar-me à noite sozinha em um bar. Por que não? Mas ontem alguns olhares trouxeram vivo à memória algo que escutei tempos atrás de uma amiga, que mora em outra cidade. Ela dizia não se sentir à vontade para fazer "coisas" sem o marido, as pessoas reparavam, a cidade, segundo ela, muito machista. Eu nunca quis saber se minha cidade é machista ou não (pois na verdade sei que é), nunca tive problemas em nadar contra a corrente, no fundo gosto, faz parte do meu "ser do contra". Mas ontem certos olhares gelaram minha espinha. Parecia o prenúncio de algo. A voz sobrenatural de um Outro, que recuso e combato, dizendo que não é coisa de mulher "direita" (vai ver por isso sou mulher de esquerda) sentar e tomar cerveja sozinha num boteco. Chegando em casa vejo em detalhe, com algum atraso, pois está difícil e angustiante acompanhar o Brasil, que a atual ministra do Ministério do Absurdo, da Mulher, Família e Direitos Humanos declarou, entre outras barbaridades, alguma bobagem associando a violência contra as mulheres ao fato delas quererem ser iguais aos homens, desqualificando a luta por igualdade de direitos. O Brasil está mergulhado num episódio de "Além da imaginação" e detesto ser elenco de apoio nesta tragédia mal escrita e sem catarse que vivemos hoje. 
"Falta disciplina", ela condena-se. É o que mais faz: censurar-se, condenar-se. Ao mesmo tempo, é a pessoa que se rebela, que está cagando pra condenação. Difícil. Quanto mais exige de si mesma, mais rebela-se contra si. Espetáculo patético e ela quase já não quer platéia. Quase...


 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...