Was the joke on me?


E o que saltou aos meus olhos foi "Só quero escrever das alturas", ponto. Das alturas... ah, D., meu amigo viajudo😍! E que livro foi esse (leia-se no ritmo da famosa música da tal Jojo Todynho 😁)?  O meu, no momento, Uma história lamentável. Bom poder te dizer isso porque sei que você também o leu. Descobri que há uma nova edição, da editora 34, e o título ficou Uma história desagradável. 

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Fiquei curiosa com essa outra tradução, será tão engraçada quanto a que nós lemos? Esta questão foi prontamente seguida de uma mais vital: será esse livro realmente engraçado? Sempre recebi um olhar de desconfiança daqueles pra quem animadamente dizia "esse livro é de chorar de tanto rir!". E, relendo-o, pude perceber: de fato é, é de chorar de tanto rir! Mas num dos inúmeros momentos em que rolava no chão em cólicas diante das desventuras do conselheiro Iván Ilítch, senti uma fisgada no estômago. Conheço bem esta fisgada. O momento lembrou-me de outro livro, da turma dos engraçadíssimos, A queda, de Camus. Que momento? Aquele da risada que segue o cigarro da satisfação, lembra-se? Pois bem, enquanto ria, algo em mim perguntava-se o porque, enquanto outro algo, como de costume, pensava incessantemente o texto sob as lentes da psicanálise. O horror, diante deste personagem ridículo, foi o de ouvir a voz dentro de mim dizendo, roberto carlostísticamente "esse cara sou eu". E agora, José, wast the joke on me?



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Só quero escrever das alturas para dizer que internet é coisa do capeta. Enquanto eu não sabia que tinha Wi-Fi free no voo, li um livro inteiro e comecei a ver um filme. Agora com Wi-Fi, acabou vida. Pelo menos o tempo passa rápido.. mas juro que só hoje, só agora , só nesse momento eu preferia não saber que teria internet.  E não, não consigo saber e desconectar.
Está certo D., você pode e, pelo visto, como todos nós, é em certa medida obrigado a se reinventar. Só não me invente de se tornar a Regina Duarte! Desculpe a piada de tiazona, é que diante da palavra "medo" prefiro lembrar-me dela (e logo em seguida, a imagem que invade o pensamento é de Regina Duarte fazendo aquela dancinha duvidosa), que pensar nos meus próprios medos (que são muitos). A vida parece nunca trazer tranquilidade pois, mesmo que boa, não se sabe o que vem depois. Sim, a gente gosta bastante de acreditar que sabe, que pode ter controle, mas a verdade é que não temos, não sabemos. Consentir com isso sem deprimir, tarefa árdua!!

Por que essa divagação? Não sei. Assim como você, D., tenho minhas dificuldades diante do luto e da morte...



Acho que a maior dificuldade nem é a falta de assunto, já que tudo vira tema de conversa. O problema é ter tempo de colocar tudo “no papel”. Meu agravante é que digito direto do celular, e não enxergo o que digito, pois a letra fica muito miúda e sou semicego. Mas vamos lá.
Hoje fechou mais um ciclo no trabalho, seria amanhã, mas foi hoje. Agora quando voltar será outro lugar, outra equipe, outras pessoas.. e isso me da medo. Acho que ficar velho vai fazendo a gente a ter medos.. não querer mudar, querer manter o que já se conquistou. Basta? Claro que basta. Já conquistei o suficiente para essa vida. Só precisaria manter. Mas a vida me obriga a ter que me reinventar . Ok.
Daí que estou agora, neste exato momento, deitado, me sentindo culpado por não estar trabalhando e não estar indo ao velório da minha recém falecida avó. Eu devia ir, mas não quero. Não quero pq não sei lidar com morte, não quero pq não muda nada,  não quero pq a lembrança de quem quer que seja no caixão é muito forte e apaga toda a lembrança que eu trago da pessoa em vida. Foi assim com meus bisôs, quando minha mãe ficou viúva.. e não seria diferente agora. Mas sinto que tenho um dever, uma obrigação e isso me deixa culpado. Meus irmãos já me liberaram “você já se despediu da vovó domingo” - sim, eu sabia que era uma despedida e quando falei tchau para ela, sai correndo para não chorar e fui na casa da outra avó (já era tarde, não ia passar lá pq precisava viajar), fui lá dar um beijo, nunca se sabe. Enfim. Não vou,   não sou um mau neto por não ir.
Morte me traz um sentimento estranho que nada tem com a perda e o luto, uma coisa minha comigo, uma reflexão “pq vivemos?” E fica parecendo tudo sem sentido. Sem filhos, quando me for desse mundo não vai sobrar nada, nenhuma lembrança.  Nada. Nada. Nada. Não é estranho?

N.

A ideia era simples. Falo do que? Deste Blog. Um espaço onde três amigos de infância, separados geograficamente mas, que brega, unidos pelo coração, pudessem escrivinhar livremente sobre o nada, sem preocupações (no meu caso, sem o peso do Outro). Afinal, são tantos anos, tantas conversas, tantas cartas! Nós gostamos de (nos) escrever, bem ou mal isso é fato! E quem é que teve a ideia de decantar palavras aqui? N., é claro! E quem é que nunca escreveu um post sequer? N., é claro! É impressionante o dom desta menina, de fazer-se presente pela ausência, chega a ser bonito. Ela é capaz de nos manter por um ano inteiro no suspense sobre suas vivências, suas viagens de Chirriro. É sempre um: depois eu conto; quando nos encontrarmos eu falo. Ora bolas, nos vemos uma vez por ano e olhe lá! Ela faz mistérios, as vezes desanda a desabafar no whatsapp, mas tem sempre um restinho, um detalhe importante que fica pra depois. Mas a amo, do jeitinho atrapalhado e procastinador que ela é. Das crises de riso mais maravilhosas que tive na vida, mais da metade deve ter sido com ela...

As desventuras de Jesus e Pedro.

A Bíblia exerce certo encanto sobre mim. Venho de uma família católica, coisa comum, mas daquele catolicismo impregnado de crendices populares. Tenho boas lembranças tanto da missa de domingo, que eu fazia questão de ir com minha avó, quanto da Dona Carmela, espécie de bruxa, velhinha enrugada que me benzia. Curava de um tudo, verdadeira pediatra! Lembro-me também das versões do livro sagrado que passaram por minha vida. Adorava a bíblia de meu avô e ele, ciumento, mal me deixava tocá-la. Mas ele gostava de me contar histórias que, anos mais tarde, percebi que eram inventadas, não estavam ali. Mais que isso, eram piadas, num estilo "As desventuras de Jesus e Pedro". Numa delas, estavam Jesus e Pedro perambulando pelo mundo (e eu nunca me perguntei onde estariam os outros 11 apóstolos numa dessas). Pediram pouso numa casa, receberam uma cama, ou apenas um punhado de palha no chão, não me recordo, que deveriam dividir. Acontece que na tal casa estava rolando uma jogatina. E bastou a presença dos hospedes para que o dono da casa começasse a perder,  associando o fato à presença destes. A ideia brilhante pra reverter o cenário? Ir até eles e dar uma surra naquele que estava deitado na ponta da cama/monte de palha. Foi Pedro quem apanhou. Cioso de levar outra surra, Pedro, muito esperto #sqn, pede que Jesus troque de lugar com ele. O filho de Deus, sonolento, que nem notara a pancadaria toda, troca de lugar com seu apóstolo. E o dono da casa segue perdendo no jogo. Ideia brilhante: bater de novo no hospede, só que desta vez naquele deitado na outra ponta da cama/monte de palha. E eis que Pedro recebe pela segunda vez uma surra. Moral da história: meu avô, antes de homem religioso  e "tenente" (como ele diz) à Deus, é um grande piadista!

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E tem aquela coisa que não imaginamos sobre nós mesmos mas que, sem pedir licença, passa a se manifestar como se sempre tivesse feito parte de nosso espírito. Quando é que eu poderia imaginar a alegria que uma ou outra plantinha cultivada por mim poderia me trazer? Que passaria tempo observando novas folhinhas brotando, a flor cumprindo seu ciclo até cair, etc, etc? Mas nunca! Não sei se você sabe, mas eu bancava a durona em quase tudo. Eu me acreditava durona. E afertar-me tanto assim com florzinhas e folhinhas verdes não estava no script.
A frustração? Talento musical zero, é o que tenho. Uma tristeza só. E olha que as vezes até me esqueço dos efeitos que ouvir um pedal duplo básico tem sobre meu corpitcho, não é pouca coisa, certamente é um tipo de tesão (tenho vários tipos). E nem pra air instrumentista eu presto, nem pra isso tenho coordenação motora. Uma coisa é não ter vocação pra, por exemplo, praticar esportes. Estou cagando pra isso. Não me lamento por ter sido aquela que sempre correu das bolas como se essas tivessem dentes e fossem me devorar. Mas a precaridade com que toco um violão ou batuco numa bateria já foi coisa de tirar o sono, hoje nem tanto, mas fica a nostalgia daquilo que nunca fui, do talento que nunca tive. 

Hamlet, Lacan e o Metal.

Sobrevivo de muitos ridículos. Um deles é ler Dostoiévski escutando Tchaikovsky. Só porque os dois são russos. Alta literatura e música clássica, que negrinha enjoada! Mas agora a moda é Hamlet. E junto dele, Lacan. 

Em Freud tá tranquilo, tá favorável: se em Édipo Rei o desejo incestuoso aparece atuado pelo sujeito, que não sabia que matou o pai e se deitou com a mãe, em Hamlet tal desejo já está, como no neurótico, recalcado. Se o príncipe Hamlet exita tanto em realizar o ato determinado pelo fantasma de seu pai é justamente por ter se identificado àquele que o matou e casou-se com sua mãe. Dito de outro modo, como poderia Hamlet matar o cara que fez aquilo que, em seu inconsciente, ele próprio realizou? 

Mas em Lacan... ah, em Lacan o buraco fica uns 500 km mais embaixo! Diz ele que o grande paranauê em Hamlet não é o desejo pela mãe e sim o desejo da mãe. Dessa mãe, dessa boceta arreganhada que não distingue entre seu pai, última bolacha do pacote, homem cheio de atributos, do irmão deste, um Zé ninguém imprestável, homem sem qualidades. Dessa mãe que não está nem aí pro luto, sai um entra outro. Economia, Horácio! Os assados do velório Puderam ser servidos como frios na mesa nupcial, é o que o Hamlet irônico, não sem amargura, nos diz. Dessa mãe que aí representa o Outro sem barra, sujeito primordial da Demanda, diante do qual o desejo do príncipe evanesce. Na cena em que Hamlet está no quarto da rainha e se dirige à ela, neste momento, a fórmula o desejo do homem é o desejo do Outro está à todo vapor, o que implica a anulação do sujeito. Representando a vontade do pai, Hamlet dá de cara é com o desejo da mãe, coisa feia, onipotente de se ver. Bem, e se Dostoiévski vai bem com Tchaikovsky, parece-me impossível reler Hamlet sem ouvir incessantemente esse CD brazuca incrível, William Shakspeare´s Hamlet, metal do bom!





ps - esse link tá ruim, as músicas cortadas no final. Mas não consegui outro link que enviasse todo o CD, apenas as músicas em separado...


Um lugar de exercício. Que exercício? Escrever. Escrever o que? Não sei. O cotidiano não é suficientemente interessante. Não? O que dizer dos cronistas então? Que dão forma a um acontecimento qualquer, tornando cúmplice o leitor? Quisera eu escrever crônicas, mas no máximo tenho vocação para lamentos. Lamentos cotidianos, hum, é uma boa péssima ideia não?  

vamos ficar por aqui?

“Apesar de pesado, esse é o período da minha vida em que estou mais leve”. Foi com essa frase que acordei de um sonho estranho, como sempre. Eu e a colega de blog F. estávamos num lugar onde tinham parreiras carregadas de uva de um lado, os trilhos de um trem no meio e uma plantação de arroz, onde estávamos com os pés molhados. Ela perguntou se eu continuava dançando de meia no quarto (algo que nunca fiz, quem faz é ela) e eu falei que preferia dançar embaixo dagua , pois estou muito gordo. Nisso a plantação se encheu de água e pude dançar um pouco, mas aí nós estávamos secos andando entre os trilhos do trem e eu falei a frase acima e acordei.

Na pele

Todos os dias eu passo pela lateral de um cemitério para ir e voltar do "serviço" e na hora do almoço (ida e volta) e sempre, além de camisinhas e outros lixos, tem alguns jovens fumando. Até ai tudo bem. Só que dia desses, enquanto esses jovens de classe média (estamos falando de higienópolis) fumavam seus becks, eu vinha no sentido consolação -angélica e vi um menino de bike parar no grupo, comprar ou vender alguma coisa e sair.. nisso chega a polícia militar, em 2 motos e achei que ia ser a tragédia de sempre, mas não.. só fizeram barulho para dispersar o grupo, que nem ficou muito preocupado e saiu meio que reclamando. 
Hoje, mesma trajeto.. mas não eram jovens de classe média e não estavam fumando. Eram um homem de meia idade e um outro mais jovem, ambos negros e a polícia revistando com a truculência habitual. Dois pesos, duas medidas. Até aí nada de novo. Mas assistir isso de camarote me deixou triste.
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Estou temporariamente trabalhando em um lugar diferente e na minha frente senta uma senhora de 60 que está fazendo a primeira faculdade, de Direito. Ela trabalha o dia todo, estuda de noite, tem uma filha desempregada. Ou seja, a pessoa faz o que pode para ter uma vida melhor. E o que escuto as pessoas falando "que ela é velha e lenta". Isso me deixa muito triste.
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Tinha mais alguma coisa para falar sobre isso.. mas não lembro.. o que posso falar é de como isso me afeta. Diariamente me sinto morrendo um pouquinho (o que de fato acontece, as célular estão envelhecendo), sinto deslocado do mundo. Aliás sempre me senti deslocado, diferente, desviado.. 

Fragilidade hétero masculina é uma coisa

Assisti o clip (clipe? Nunca sei se tem “e”) da Pabllo Vittar e, apesar de entender, não gostei. Não me tocou. Mas..
Mas fui assistir ao “reacting” do vídeo em 2  canais: um de um menino árabe (Kaif) e um de uma menina trans (Mandy Candy) e aí me senti meio egoísta por não ter gostado, pois eles chorando diziam que passaram por tudo aquilo do clipe. Enfim, sou privilegiado por ser homem, branco e “apesar de” gay, nunca apanhei ou sofri bullying, até pq sempre pratiquei o bullying preventivo.
E eis que agora, depois de adulto, passo por uns constrangimentos bem estranhos. No trabalho os heteros tem medo de me encontrar no banheiro (que é grande suficiente pra até 4 pessoas). Sempre que estou no banheiro (e nunca no mictório - que é individual e bem escondido) e entra algum hétero e me vê, vejo eles dando ré para “desentrar” , ficam tudo cheio de dedos.. será que passa o que pela cabeça deles? Que vou atacar? Primeiro eu ficava meio bravo, agora estou trabalhando para entender que os incomodados são eles.. não eu.

E continua um festival de machismo, homofobia, racismo, xenofobia, misoginia no trabalho.. eu devia lutar, devia falar. Me calo. Fica parecendo que sou conivente. Mas sou um no meio de tantos, me vejo sem voz.

Uma atitude inesperada que muda o dia

e hoje eu ia falar de preconceito.. do quanto trabalho com pessoas padrãozinho que ficam falando merdas e destilando ódios gratuitos. Mas aí, na hora do almoço, fui para casa e na porta do apto tinha chocolates e um bilhete que dizia , ou melhor, que pedia desculpas por um possível transtorno causado por uma mudança que aconteceu no andar de cima - suposto transtorno, pois não ouvi nada. E aí fui tomado pelo amor do chocolate inesperado e, por hoje, desisti de falar de preconceito. Deixa esses ranzinzas com suas úlceras para lá. Eu quero propagar amor. “Consideramos justa TODA forma de amor”  - hoje foi a vizinha e o chocolate.

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...