Pequenas notas sobre "O amor nos tempos do cólera"

Pensa num médico jovem, recém formado, carregando os muitos diplomas que pendurará ao lado do único do pai, também médico. Recém formado não em qualquer lugar, mas na Europa, retornando para sua cidade natal latino-americana. Sob seus olhos, pequeno desastre sanitário. Desembarca como mais um dos traídos pela memória. Quando em Páris, acreditou que jamais trocaria "por tudo aquilo um único instante do seu Caribe em abril. Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado." (p.136). Desembarca em uma "pátria de escombros" (p.138), de crendices populares e hospitalares arraigadas, do tipo "colocar os pés das camas em potes com água para impedir que as doenças subissem". Assim como no momento em que escrevo, em meio à uma pandemia, a França, que entrou nisso quase que no mesmo momento que nós no Brasil, está saindo de boas, na medida do que isto é possível, deste cenário, enquanto que nós até aqui no máximo brincamos de ser científicos, sob um governo que decidiu que é bom que muitos morram, essa é a política. Dito com a academia: necropolítica (Mbembe).
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O nome já dá no que pensar. "O amor nos tempos do cólera". Eu preciso sempre dar uma olhadela no título: "é no tempo ou nos tempos" a pergunta. O fato de tempo aparecer no plural, isso já dá no que pensar. Pois para além do tempo cronológico que, em sua aparência, "caminha para frente", existem os diferentes tempos das personagens, o tempo psíquico em que cada um vive o amor. E, mais que isso, há o narrador. Não conheço profundamente a obra de García Marquez, por isso me pergunto se o Tempo, e agora até coloco em maiúscula, nelas é coisa importante. Pois me parece que é. Cem anos de solidão é muito tempo e lá, assim como aqui nos tempos do cólera, o narrador vai pra frente e pra trás, trás elementos do passado e do futuro com a fluidez de quem tropeçasse num espaço sem gravidade. Os tempos de Juvenal Urbino, eu os diria metódico. Já de Florentino Ariza, pura paixão produtiva. De Fermina Daza não sei. Não sei dizer de seus tempos, mas é uma mulher de ato. 

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 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...