Sente-se bizarra, porque é. Está sempre esquecendo e começando as mesmas coisas, sempre retornando ao mesmo lugar. Como devo ser bizarra pros outros!, pensa encafifada.
Desde 2015 parece estar no mesmo lugar. A mesmo ladainha: quero escrever! E não escreve. Ou melhor dizendo, escreve pouco, escrever lhe custa e muito. 

E no pouco que escreve encontra sempre, só depois, algo de si ali explícito, de forma que lhe parece quase sempre obscena. Talvez seja por isso, e não por medo de se envergonhar com a má qualidade do texto, que ainda não conseguiu ler seu primeiro artigo publicado numa revista desejo, uma que respeita. Respeita um pouco menos, agora que ali tem um texto seu. E no fundo ela sabe: está com medo do que pode encontrar de si ali revelado, naquele artigo no qual ficara às voltas com um rabo de porco. 

Logo se esquecerá disso tudo. E relembrará em outras agonias, tudo igual, o mesmo período de sofrimento recalcado que fica fazendo cena em sua vida. Do período pré e pós a morte de seu irmão, tem apenas resquícios ínfimos de memória. Num deles, está ao pé do caixão. O pai, na cabeceira ao lado, cabeça baixa amparada pela mão, a outra mão cobre a testa. Ele, assim, chora. É como se só houvesse os três ali. Há muita luz, luz do dia; Noutro fiapo, ela conduz o irmão pelo braço, madrugada adentro, até a porta do quarto dos pais. A porta está trancada. Uma voz ordena lá de dentro que retornem ao próprio quarto. É a voz do pai. Ou é a voz da mãe? Os dois se abraçam e ficam agachados perto da porta. Ao contrário da primeira cena narrada, é como expectadora que ela assiste às duas crianças. 

O medo do que teme é justamente porque acredita ou sabe que no fim terá de perder algo valioso. Perder algo para que seja encontrado novamente, é o que foi dito.       

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...