I

A história é assim: um homem tem 12 filhos, mas destes um lhe é o preferido. Este homem, o pai, sequer tem o bom senso (ou não) de disfarçar tal preferência: geral sabe, preferência declarada! O menino, José. Certo dia o pai presenteia José, e apenas José, com um casaco lindo, todo colorido. Os irmãos que já não iam com as fuças de José ficam irados. Pra ajudar, José mete-se a ter sonhos de dominação.

Seguindo o texto dos sonhos, "Estávamos colhendo trigo no campo. Então meu feixe se pôs de pé e os feixes de todos vocês fizeram um círculo em volta e se curvaram para o meu"; "Ouçam meu sonho: o Sol, a Lua e onze estrelas se inclinavam diante de mim", fez-me pensar na expressão do Freud de "Introdução ao narcisismo" (1914): sua majestade o bebê. Promessa de completude, o bebê reina sobre os pais na medida em que a cada novo filho é possível aos pais reviverem-se na mais idealizada das formas. Em cada novo bebê é possível aos pais nele reviver e reproduzir seu próprio narcisismo, experienciando através da criança a renovação das exigências de privilégios que ha´muito foram abandonados. Dimensão imaginária na qual o sujeito apreende-se como um todo, sem furos, sem buracos.  

Importa o lugar que ocupamos/supomos ocupar no desejo de nossos pais, o lugar que ocupamos no desejo do Outro. 


Viver esta nebuloso. Lembro de quando era pequenina criança e gostava de ler e reler 3 livros, volume 1, 2 e 3. "Histórias da bíblia para crianças". Eu lia e relia, over and over, de novo e de novo, entre o medo e o fascínio. Livro infantil, cheio de figuras , imagens a significar as histórias contadas. Tive um sonho. E é bonito de ver como um único significante é porta de entrada para tantos sentidos. E é bonito de ler esses sentidos, é bonito de ver a própria história, a história dos pacientes também, deslizando numa "história mais bonita que a de Robson Crusoé". "Vaca magra" foi o significante do sonho que sonhei que fez-me deslizar para a bíblica história de José. Filho de Jacó, era, entre 12 irmãos, o ostensivamente o preferido do pai. Há uma potência de estrago numa situação desta. Os filhos demandam completar o Outro parental e quando este lugar é nitidamente ocupado por um outro, irmão, igual e rival, o lugar de dejeto fica por demais evidente. E numa família cristã o pai ocupa o centro,  dizendo freudianamente, ocupa o lugar de líder em torno do qual o restante dos membros procura de destacar/se rebelar (justamente para se alienar num significante paterno, seja ele de filho preferido, seja ele ovelha negra).  O garoto José é um garoto atento aos próprios sonhos. Os conta e interpreta para os irmãos, e a interpretação tem sempre um mesmo sentido: José, no centro, governa à todos, inclusive o pai. Seus irmãos ficam pistola diante de tal petulância! A gota d'água é quando Jacó tem a brilhante,  só que não, ideia de presentear José, e apenas José, com um bonita túnica multicolorida. O efeito disto: os irmãos prendem José, o vendem como escravo para os egípcios e contam para o pai que ele fora comido por feras.       

 Manhã do pior dia da semana, segunda-feira. Foi a primeira desde que o ano iniciou, desde que as férias acabaram, desde que minha mãe foi e...